Dia: março 19, 2008

‘Accelerate’ R.E.M. **

Postado em Atualizado em

rem.jpgSobre o novo do R.E.M., de mim vocês não ouvirão muito além de um sussurro desanimado. Já tentei cinco vezes, sempre à espera de uma revelação mirabolante que justificasse o auê em torno do álbum, mas não encontrei a chave do pote de tesouro. Me esforçarei outras vezes, mas não acredito em uma mudança de opinião. É um disco competente e deslocado em tempo-espaço (“out of time”, eles diriam), mais ou menos como todos os que a banda gravou a partir de Up. Mas que não me entusiasma ao ponto de tecer comparações com álbuns como Document ou até mesmo como o sujinho Monster, que pelo menos era divertido sacana.

Estou ficando velho, vocês sabem, e por isso vejo graça nessa frenética movimentação de jornalistas aflitos por rotular este Accelerate como um “retorno à forma”. Engraçado porque a própria Rolling Stone, que hoje celebra o “renascimento” do R.E.M., havia elogiado o frívolo e hoje crucificado Around the sun. O marketing de Accelerate se concentra nessa promessa de um grupo novamente furioso, pronto para a luta. Mas é isso mesmo? De verdade? Dá a impressão de que muito jornalista escreveu sobre o disco antes da primeira audição.

Há um clichê na música pop que o R.E.M. hoje incorpora. Grandes bandas abaladas por projetos fracassados geralmente retornam com discos simples, crus e diretos. Depois da bad trip de Pop, o U2 contra-atacou com o demasiado-humano All that you can’t leave behind. Em seguida ao álbum psicodélico, os Rolling Stones voltaram a soar como Rolling Stones. No novo álbum, o R.E.M. tenta um retorno aos “anos de ouro” com uma sonoridade menos polida, às vezes mais agressivas. Nada muito radical, já que ainda há a balada consternada, à Drive (Until the day is done) e o fluxo de consciência enérgico, à Imitation of life (Supernatural superserious).

O vírus que maltratou Around the sun atende por um nome: produção. Era o álbum mais plano da banda, e às vezes soava simplesmente tosco. Já Accelerate, com todas as tripas à mostra, desce mais redondinho. Funciona assim, como a resposta de Michael Stipe ao Arctic Monkeys. Mas há uma questão que, desde Up, não se resolve: as letras, que eram o principal trunfo do grupo, hoje parecem ter perdido a verve, o sarcasmo, as rimas venenosas e o lirismo lindamente desiludido. No máximo, Stipe se declara um “DJ do fim do mundo”. Depois de 35 minutos de calculado “retorno à forma”, não me resta muito além de uma difícil adaptação à morna fase “madura” desses gigantes.

‘Third’ Portishead ***

Postado em Atualizado em

portishead.jpgApague as luzes. Conte até dez. O retorno do Portishead não é amigável. Não é algodão-doce. Não é neve rala em Londres. Não tem cheiro do casaco que você usava na infância. Por isso, sugiro que você pense algumas vezes antes de desancar o álbum com um ríspido “decepção!”

Entendo. De certa forma, é mesmo uma decepção. Pelo menos para quem esperava um novo álbum do velho Portishead. Prefiro outro termo: anti-clímax. Third é o anti-clímax do ano, e duvido que encontre concorrentes à altura.

Os fãs do Portishead são heróis da resistência. E eles se dividem praticamente em dois grupos. Há os que torciam por um álbum que simplesmente desprezasse um intervalo de onze anos e continuasse alegremente (ou melancolicamente, melhor dizendo) o álbum anterior, o acinzentado e maravilhosamente glacial Portishead, de 1997. E há os que queriam uma atualização do som do trio. Um Portishead electro, imagine aí. Ou um Portishead remixado pelo James Murphy, quem sabe.

Third não é um nem outro. É um objeto estranho, que poderia ter sido criado em qualquer ano entre 1998 e 2008. Ou entre 1978 e 2008.Há momentos no álbum que recorrem a um tipo tão primitivo de eletrônica que remetem ao uma homenagem crua ao Joy Division de Isolation, de She’s lost control. Em faixas mais plácidas, a banda arrisca mesclar violões (que lembram o projeto solo da Beth Gibbons com o Rustin Man) com batidas desencontradas, opacas. No wikipedia, o disco é definido como trip hop. Ainda há elementos de hip hop e de dub, mas o Portishead cobra a redefinição do conceito. A fórceps.

Essa tentativa de adaptação a um novo tempo (e não exatamente aos novos tempos) não deixa de soar como um esforço sobrenatural para uma banda que, nos dois primeiros discos, forjou uma marca sólida e intransferível. Quem ouve os primeiros acordes de All mine, por exemplo, sabe exatamente quem está escutando. Já Third confunde o jogo com a instabilidade que se espera de um trabalho de transição. Seria ótimo se, em um ano, o trio retornasse com outro álbum. Sinceramente? Duvido muito que isso vá ocorrer.

Se a estética da banda sofreu um colapso, um terremoto (o que não impede faixas lindas como Magic doors ou experimentos bem-sucedidos como o krautrock de Machine gun), esse abalo deixou a atmosfera que cerca o trio ainda mais pesada. Talvez seja o álbum mais dolorido da trajetória do grupo, com letras que invariavelmente lidam com desastres emocionais, amores frustrados, dores de cotovelo quase fatais. Nas canções do Radiohead, o mal-estar da civilização está na rotina vazia, no tédio do cotidiano, na linha de trem que leva ao trabalho todas as manhãs. Já Gibbons geme para o furacão de uma eterna crise íntima, existencial. “Me sinto incompleta”, confessa, em Magic doors. É daí para pior.

Há como imaginar pontos de contato entre Third e In rainbows. São dois álbuns que exibem o quão difícil deve ter sido concebê-los. Mas que tiram da tensão criativa novos sentidos para a existência de bandas fundamentais, ainda fascinantes de tão misteriosas. A diferença é que In rainbows era convidativo. Third é um baque. Mas vamos lá: você ficaria verdadeiramente contente se o Portishead tivesse demorado dez anos para nos informar que passou a se sentir muito confortável com a vida no planeta Terra?