Dia: março 14, 2008

Todo mundo é crítico

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É sobre um carinha enrolado com uma psicopata. Filme de ex-namorada xarope.

Comentário que ouvi na cantina do trabalho sobre O passado, de Hector Babenco.

Um beijo roubado **

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Existe pastel de vento saboroso?

Quando o confeiteiro atende por Wong Kar-wai, existe. Um beijo roubado (tradução para My blueberry nights) é, de muito longe, o longa mais rasteiro do cineasta entre todos os que vi. Imagino o susto da platéia do Festival de Cannes ao final da projeção. “Só isso?”, alguém certamente perguntou. Em muitos momentos, parece um remake norte-americano de Anjos caídos dirigido por Baz Luhrmann. Não estou exagerando.

O romantismo róseo é daqueles que se encontra numa canção dos Carpenters. E os personagens parecem erguidos em estrutura de papel marchê e cola. Olhe mais de perto e você notará que não há absolutamente nada dentro deles. Vento. Sabor morango.

Impossível desviar da decepção. Depois de Amor à flor da pele e 2046, Kar-wai deu dois passos para trás. Talvez tenha subestimado o público norte-americano, mas ainda assim me pergunto: para quê? Aposto que a platéia deste longa será a mesma que freqüentou salas de arte para assistir às produções anteriores do diretor. E, caso consiga cativar uma platéia mais ampla, não entendo por que Kar-wai teria a ambição de conquistar menininhas românticas de high schools, ou donas de casa fãs de Days of our lives. Com que propósito?

Eis um filme que me transformou em uma criança pequena em busca de respostas para mil porquês.

Apesar de tudo (e aqui vem a justificativa para as duas tímidas estrelinhas que você vê lá em cima), não deixa de ser curioso acompanhar essa transposição do cinema de Kar-wai para território norte-americano. Por um motivo, principalmente: ao contrário de um Lars Von Trier, o cineasta não parece ter tanto interesse pelos símbolos culturais dos Estados Unidos. No máximo, arrasta os personagens para Las Vegas e encena os dramas amorosos ao som de Cat Power. Esse distanciamento torna a experiência muito particular, e acaba explicando muito sobre as obsessões do cineasta.

É um road movie de closes e espaços fechados – o que é estranho dentro da tradição norte-americana do gênero. Mas, simultaneamente, Kar-wai mal permite que o próprio universo se contamine por essa nova geografia. Estamos de volta ao colorido do neon, à quentura da fotografia, à narrativa circular, às metáforas pueris (desta vez, sobre chaves que abrem certas portas e tortas de mirtilo rejeitadas por clientes). E também retornamos a um cineasta com pleno controle dessa gramática, mais interessado em tingir sentimentos que em desenvolver situações (o filme parece até uma colagem de três curtas-metragens sobre amor e perda). É aí que o pastel de vento ganha algum sabor.

Mas é um exercício de perfumaria. Só para constar.