Dia: março 13, 2008

Estamos bem mesmo sem você ***

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O título em português é bonito, mas vamos devagar: nenhum personagem está bem neste filme. As situações são percebidas pelo olhar assustado de um menino – Tommi, de 11 anos – que se movimenta com extremo desconforto em meio a uma família que nunca consegue se manter de pé por mais de uma semana. Mas me pergunto: que família consegue?

No ambiente familiar, instabilidade é regra. A estréia (surpreendentemente segura) de Kim Rossi Stuart soa como um ensaio em torno de tensões domésticas, do caos recorrente. Talvez por isso tenha optado por uma estrutura circular. Antes do início da trama, aquela família já sofreu os baques provocados por sucessivas ausências da figura materna. Quando a mãe retorna ao lar, eles não podem fazer muito além de controlar a felicidade. Impossível comemorar uma tragédia anunciada.

Os personagens sabem que não vivem nada de extraordinário – apenas uma crise dentro de uma crise dentro de uma crise. Assim, eles são desenhados entre surtos de descontrole e demonstrações de afeto. Logo na primeira cena, compramos a briga do pai solitário, que passa a roupa para os dois filhos pequenos. Mas e quando o pai revela uma agressividade infantil, capaz de descarregar frustrações violentas quando o filho perde uma competição esportiva?

O diretor demonstra precoce maturidade, e quando menos se espera. O inferno do lar poderia ter descambado em uma tragédia fácil, mas Stuart sempre mantém a saudável postura de quem não aceita massacrar os personagens com os pontapés de um roteiro esquemático. Nada mais assustador, ele sabe, que a perspectiva de perder totalmente o controle das ações cotidianas. De, num rompante, quebrar a mobília e expulsar o filho de casa.

Stuart não se esquiva do furacão. Mas não quer filmar somente isso. O desastre existe. Mas nunca é tudo.