Dia: março 12, 2008

Interpol em São Paulo **

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“Nós sempre tivemos problemas. Todos precisam ter voz, precisam se expressar. Todo mundo quer colocar algo de si na música, então a gente sempre briga”, disse o vocalista Paul Banks ao G1. Nem precisava ter confessado esse tipo de coisa. No palco, o Interpol deixa a impressão de reunir cinco sujeitos tão diferentes que parecem formar uma (perdoem a heresia) boy band do quinto dos infernos.

Banks é o band leader amargurado e fashion, que está aqui mas poderia estar no Silverchair ou no Kings of Leon. Daniel Kessler é o guitarrista simpático, vestido em terninho cool, munido de um arsenal de sorrisos e acenos que o indicariam a uma vaga no Kaiser Chiefs. Já Carlos D é o Sweeney Todd e não se fala mais nisso. O baterista se veste como o candidato metaleiro do American idol. E o tecladista usa um chapeuzinho à Buena Vista Social Club. Eu esperava tudo do Interpol. Tudo. Menos isso.

Como assim? Justo o fã de carteirinha, o maníaco que comprou o ingresso do show em novembro do ano passado, o sujeito emocionalmente abalado por cada um dos três álbuns da banda (inclusive o mediano Our love to admire), não havia ainda transformado o Interpol em um evento visual? Durante o show, percebi que minha relação com o grupo sempre foi estritamente musical. Não lembro de tê-los visto em clipes. Nem no YouTube. Nem em muitas capas de revista. Talvez por causa das incessantes comparações com Joy Division, eu esperava por pessoas mais deprimidas e entrosadas numa névoa de melancolia incurável. Não é bem isso. Quer dizer: não é nada disso.

O Interpol, sabemos, não é exatamente a diluição do rock gótico (como querem os detratores) nem o apogeu sombrio do “novo rock” nova-iorquino (como defendem os fãs mais inconseqüentes). Trata-se de uma banda que sabe filtrar as referências mais cavernosas do final dos anos 70 pelo olhar de quem viveu o grunge (há Nirvana em Evil, por exemplo) e aprendeu a escrever refrão com os Pixies (repare em Rest my chemistry, plágio/homenagem a Where is my mind?). Prova disso é que, apesar de toda pompa blasé dos performers, o público que lotou o Via Funchal cantou cada trechinho de cada música com o entusiasmo de quem berra hino de torcida. Fácil como, digamos, Strokes.

Agora, o show? Para quem esperou seis anos por isso, não pude esconder certa decepção. Com a qualidade do som, abafadíssimo (curioso que, no show de abertura, do Cachorro Grande, as caixas pareciam poderosas). Com a falta de ousadia da banda na execução (o termo é esse mesmo) das canções. Com uma jam session picareta que rolou no bis. E com a insistência do Interpol no andamento quase morto-vivo de baladas leeeeeentas como Lighthouse (que poderia ter sido substituída tranquilamente por Last exit).

Mas gostei sim do jogo de luzes e fumaça, que sublinha o lado soturno das canções. E, claro, com hits tão geniais como Evil e PDA, nenhum show será modorrento. Aliás, uma banda antipática nunca agradaria aos fãs com uma quantidade tão generosa de mais-pedidas. Contraditórios, eles. Confuso, eu.

PS: Além de ter assistido a este estranho show na companhia do ilustre Diego Maia (que quase tirou uma soneca durante Lighthouse), ainda conheci o Daniel Pilon, que volta e meia dá as caras aqui no blog (e parece ter curtido bastante o show, diga aí).