Dia: março 6, 2008

O orfanato **

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Eu estava gostando até muito! Mas…

A grande fraqueza do filme é que, apesar de todo o talento do diretor para construir climas tensos (e é um suspense verdadeiramente assustador, raridade no gênero), toda a trama é erguida lentamente, elegantemente, para nos levar a um clímax que repete quase literalmente as idéias de O labirinto do fauno.

E aí você tenta se beliscar para acordar de um sonho ruim, olha nos créditos e repara no imenso destaque garantido ao Guillermo del Toro. Nessa altura, o homem já se transformou em um Spielberg do cinema espanhol – no estrito sentido de que o nome do cineasta valoriza qualquer projeto, não me entendam mal.

Mas calma aí, não vou dar uma de Inácio Araújo. Um plágio não é o fim. E às vezes nem é simplesmente plágio – há histórias que se repetem sem que nos demos muita conta disso. O orfanato tem muitas qualidades para ser desprezado por conta desse detalhe. Tem uma bela atuação de Belém Rueda, por exemplo. E um trabalho de som que provocaria agonia até se o projecionista impedisse que as imagens chegassem à tela.

E até emociona, se você conseguir bloquear O labirinto do fauno do seu arquivo de memórias recentes. Entretenimento cruel de primeira linha, especialmente para amnésicos.

‘Dig, Lazarus, dig!!!’ Nick Cave & The Bad Seeds ***

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nickcave.jpgChame de Outback Steakhouse From Hell, mas o álbum em que o vampiro Nick Cave presta reverências à overdose hormonal do garage rock é um misto de trem-fantasma com paródia de fitas de horror. Exatamente o que esperávamos do senhor das trevas. O que não contávamos era que essa idéia muito simples renderia um discão.

Depois de uma superprodução bem-sucedida (o duplo Abbatoir blues/The lyre of Orpheus, talvez a obra-prima de Cave), o que fazer? A única saída sensata, ele explica, é o banho de lama. O filme B.  Sedento de sangue e de refrões anabolizados, o compositor exercitou os músculos no projeto paralelo Grinderman. Fez bem, já que a transformação sofrida pela banda em Dig, Lazarus, Dig!!! é mais que oportuna. O truque de Cave é simular um retorno elegante à estaca zero, como se tivesse novamente 21 anos de idade (tem 50).

Buscar a juventude eterna nunca dá certo. Mas a palavra aqui é esta: simular. Já que o homem, nada inocente, e aproveita a aparente despretensão do disco para fazer uma lipoaspiração nos recorrentes contos góticos. É um dos álbuns mais enxutos de Cave, sem deixar de soar complexo (vide as lindas baladas Hold on to yourself e Midnight man) e sem transformar as faixas mais enérgicas em chamarizes superficiais para o resto do disco. Na verdade, as canções que se destacam são as mais esporrentas: a faixa-título, Today’s lesson, Albert goes west e Lie down here (and be my girl). Fácil, quatro das melhores que você ouvirá em 2008.

“Não sei o que é, mas definitivamente algo acontece no andar de cima”, avisa Cave, logo na faixa de abertura. Usa aquele tom mezzo ameaçador mezzo fake de um ator muito conhecido, confortável no papel de serial killer. Milagrosamente, estamos todos nos mijando de medo mais uma vez.