Dia: março 3, 2008

Jogos do poder **

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Entrei no cinema sem expectativas e saí assim, um pouco decepcionado com Mike Nichols. Não pela primeira vez. Me lembrou de como eu me frustrara com o diretor quando assisti a Lobo, lá em 1994. E ao remake de Gaiola das loucas, em 1996. Os filmes não têm problemas muito graves. Mas exibem um certo desânimo, uma preguiça formal, um estranho desconforto com as histórias que narram. São projetos corretos, para não dizer desbotados, do cineasta de A primeira noite de um homem.

Há quem argumente que Jogos do poder escapa das armadilhas de telefilmes. Ainda não estou tão certo disso. É um telefilme. Competente, mas um telefilme. Sabe quando as produções originais da TNT tentam nos convencer de que os personagens estão no Irã, e tudo o que vemos é o quintal ornamentado de um estúdio em Los Angeles? Substitua Irã por Afeganistão. Dirão que a pobreza de elementos cênicos, contra os preceitos de uma típica encenação realista, remete a uma tentativa de simbolismo. Ok. Simbolismo, então. À TNT.

Em grande parte, o longa parece mesmo simbólico. Mais que isso, tem a aparência de uma fábula, de uma tirinha de jornal. Os personagens são desenhados como charges ambulantes – vide o agente turrão de Philip Seymour Hoffman, e o congressista bonachão de Tom Hanks, e a socialite extravagante de Julia Roberta -, que se movimentam em uma América fadada ao patético. O roteiro (engessado) de Aaron Sorkin se esforça um bocado para relatar em detalhes um golpe militar e político fora do comum. Enquanto isso, Nichols transforma a estratégia em circo.

Fica até a impressão de que Nichols só se interessa pelos desvios mais grotescos dos personagens. Prova disso é que, quando rascunha um filme de guerra, o faz com rapidez e desleixo. Os últimos 15 minutos de filme, que narram o contra-ataque afegão contra os russos, durariam 120 nas mãos de um cineasta mais atento às complexidades do tema. O diretor não quer saber disso, e é simplório até quando faz uma associação tosca entre o Afeganistão dos anos 80 com os atentados terroristas de 2001.

Mas, apesar de tudo, existe um olhar clínico e blasé que faz de Jogos do poder um filme curioso, sem a carga de patriotismo que um projeto desses normalmente carregaria. O problema é que Nichols foi pago para narrar uma história. E narra. Com a precariedade de um telefilme.