Dia: março 2, 2008

Rambo IV *

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Você entra no Wikipedia e está lá: na série Rambo, o quarto episódio bate o recorde de assassinatos. São 236 mortes. 2.59 por minuto. É uma das primeiras informações na página, logo na segunda frase do texto. É quase tudo, aliás, que precisamos saber sobre o filme, o novo projeto autoral de Sylvester Stallone, roteirista e diretor também de Rocky Balboa.

São filmes parecidos para personagens diferentes. Em comum, tratam de homens sarados e desmiolados que usam a violência como forma de, digamos assim, encontrar um lugar no mundo. Mas, enquanto Rocky é uma representação tosquíssima para o róseo sonho americano – o cidadão humilde que se impõe sobre as adversidades -, Rambo sai-se como o gêmeo malvado dessa mesma utopia. É o soldado sequelado, arredio e animalesco, que aprendeu a vencer todas as batalhas no muque, no tiro de metralhadora. Vingar-se, para ele, é uma ação tão natural quanto amarrar um pedaço de pano na testa. Se Rocky tivesse lutado na Guerra do Vietnã, provavelmente teria voltado Rambo.

Daí as diferenças. Enquanto Rocky chegou a ser legitimado com o prêmio máximo da indústria, Rambo nasceu como produto do cinema de ação mais estreito e brutal do início dos anos 80. Faces da mesma moeda, entretanto. Boas intenções sentimentais de um lado, exploitation de outro. Retratos da América? Em nenhum dos filmes essa ambição existe explicitamente. Stallone é plano demais para conceitos desse tamanho. O máximo que registra são reflexos instintivos, emotivos, de determinados momentos dos Estados Unidos.

Rambo IV, assim, é tão grosseiro quanto Rambo II. Da mesma forma como Rocky Balboa apela para a mesma filosofia auto-ajuda de Rocky III. Estamos na mesma. O detalhe instigante dessa história é que, ao revitalizar esses dois personagens em 2006/2008, Stallone desloca bruscamente (já que não poderia ter feito de outra forma) toda uma simbologia para uma outra época. Está tudo igual, mas diferente.

Rocky Balboa usa um gênero decadente (o “filme de boxe”) para narrar a queda de um ícone dos ringues, já flácido, à beira da terceira idade. Em Rambo IV, o procedimento é parecido: Stallone toma um modelo quase banido das telas (a fita de ação agressivamente violenta, hoje politicamente incorreta) e transforma Rambo num soldado apático, quase entediado, que vaga pelo matagal de Mianmar como quem cumpre uma última missão antes da aposentadoria. São, também, filmes sobre modelos ultrapassados de cinema popular.

E que ninguém venha com análises do tipo “a América de George W. Bush se assemelha à de Ronald Reagan”, já que o buraco é mais embaixo. Stallone não pensa em política quando planeja o revival do carniceiro. Ele só quer se reencontrar com um antigo personagem, arriscar uma última luta – e, nesse flashback, o filme se movimenta como uma melancólica festa de despedida, um aceno para um cinema que caiu em desuso. É sincero, num jeito meio Kléber Bambam de ser.

Mas, no reencontro, o ator/diretor/roteirista joga (sem querer) tripas no ventilador. Como não rejeitar o discurso autoritário de um filme que prega a solução violenta de conflitos e simplifica os personagens a símbolos infantis de maldade (que precisam ser eliminados) e bondade (a mocinha indefesa, sequestrada na selva)?

Não haverá uma única resenha que deixará de condenar o filme pelos “desvios morais” da trama. E muitos espectadores sairão da sala de exibição enjoados com o excesso de sangue. É uma boa notícia. Se Rambo quer dizer algo sobre o mundo em que vivemos é que este mundo não o aceita mais. Estávamos bem mesmo sem ele.