Dia: fevereiro 26, 2008

Control *

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Descobri o Joy Division cedo demais. Talvez por isso, não entendi nada. Eu tinha uns 17 anos quando comprei a caixa Heart and soul, encalhada numa loja de discos, e engoli a banda numa garfada só. Bateu pesado, quase me afoguei no lamaçal sonoro. No belo texto do encarte, se fala de uma Inglaterra sombria, intransitável. Uma imagem precisa para ilustrar aqueles acordes duríssimos.

Mas eu era novo demais. Recomendo o Joy Division para quem tem mais de 25. Para quem já sofreu a primeira grande desilusão amorosa (e conseguiu superá-la), para quem já superou a maior parte dos delírios de adolescência. Já nos primeiros singles, não havia esperanças. O segundo e último álbum, a obra-prima Closer, ainda está trancado em algum porão inacessível. Ainda parece impossível tentar aproximação com o porta-voz dessa triste poesia: Ian Curtis.

Como filmar essa presença fantasmagórica? Para uma cinebiografia de Curtis, eu convidaria o Alexander Sokurov. Ou o Paul Thomas Anderson desalmado de Sangue negro. Daí o estranho choque provocado por Control: trata-se de um longa que, apesar de rodado em branco e preto (uma opção até meio óbvia para um diretor que já rodou zilhões de videoclipes nesse formato), ilumina a vida privada de Curtis com a riqueza de detalhes banais que esperamos de um telefilme sobre Lindsay Lohan.

Confesso que descobrir esse personagem dessa forma tirou um pouco do mistério que sempre pairou sobre aquele outro homem, enclausurado nas canções do Joy Division.

Inspirado em um livro escrito pela mulher de Curtis, que também produz o longa, Control é um perfil quase doméstico, dedicado exageradamente à tensa relação entre o compositor e a esposa. Dentro desse parâmetro limitadíssimo, é uma produção correta. Mas queríamos realmente saber tanto assim sobre o longo caso extraconjugal do músico com uma repórter belga? Estávamos interessados na dificuldade que ele enfrentava para conciliar turnês e afazeres do lar?

Mais frustrante é quando Anton Corbijn (que começou a carreira com fotografias da banda para revistas inglesas) tenta explicar a origem das músicas do Joy Division a partir de situações vividas por Curtis. Exemplo: ele tem uma discussão violenta com a mulher e, em seguida, ouvimos Love will tear us apart. É só isso?

Até o suicídio de Curtis – até então, um grande ponto de interrogação até para quem o acompanhava de perto – é “resolvido” pelo cinema. Tudo, explica o diretor, uma questão de perda de controle, de não saber lidar com uma sucessão de ataques epiléticos, de deixar a vida escorrer entre os dedos – numa referência simplória (mais uma!) à faixa She’s lost control. O ator Sam Riley vive a agonia do ídolo, mas não encontra respaldo numa narrativa cartesiana.

Tento ser otimista, mas não dá: Control é um filme pequeno para Ian Curtis. Faz esforço para tirar o mito do pedestal, mas não sabe muito o que fazer com ele. No fim das contas, o banaliza. E, mais ou menos como a versão do Killers para Shadowplay, se faz de cúmplice – mas soa como espectador desinteressado de uma tragédia desinteressante.