Dia: fevereiro 21, 2008

Medo da verdade ***

Postado em Atualizado em

gonebaby.jpg

Não sei se já contei esta história (minha memória anda um lixo), mas enfim: conheço uma garota que escolhe o filme pelo cartaz. Literalmente. Estou falando sério. Ela aceita o convite dos pôsteres mais coloridos e leves, e rejeita aqueles mais sombrios. Já viu praticamente todos os longas com fotos de divulgação em tom pastel. Se arrumou toda para assistir a O labirinto do fauno, mas jogou a toalha no saguão do Cinemark. Escuro demais.

É um exemplo extremo de como, no fim das contas, nos aproximamos dos filmes de formas muito particulares. Carregamos para a sala de exibição um sem-número de tabus, precauções, temores e traumas. Já tentei convencer três pessoas a tentar Embriagado de amor, mas todas desanimaram quando citei o nome Adam Sandler. Paciência. Um amigo meu, que detesta musicais, abandonou a sessão de Sweeney Todd nos cinco minutos iniciais. O que fazer? Estamos numa democracia.

Toda essa ladainha me ajuda a entender a rejeição que Medo da verdade sofreu e sofrerá em alguns cantos. Pode parecer um filme muito fácil de se gostar, talvez por ter sido inspirado em um livro de Dennis Lehane (autor de Sobre meninos e lobos), mas não é. Para começo de conversa, ele é dirigido de uma forma muito desengonçada, às vezes aos trancos e barrancos, com falhas aparentes. É o que costuma acontecer em estréias. E, no mais, trata-se do debut de…ahn…er… Ben Affleck.

Mas, como eu dizia, há formas e formas de se aproximar de um filme. Medo da verdade me atrai sobretudo pela ambição de Affleck, que não aceita caminhar em terreno seguro. É fácil elogiar filmes despretensiosos que cumprem com competência expectativas mínimas. Difícil é peitar as limitações de projetos que se esforçam para ir além do mero exercício de gênero. Filmes ambiciosos, quando desabam, caem feito bigorna de desenho animado. Mas não me importo. Para mim, eles são mais interessantes.

Quando optou por filmar Sobre meninos e lobos, Clint Eastwood se inspirou no livro consagrado, em que Lehane refina o tratamento dos textos anteriores em uma obra madura, cristalina, com aquele desejo intenso de subverter as regras do típico romance policial. Escrito dois anos antes, Gone baby gone ainda revela um autor em processo de construção dessa identidade.

Os protagonistas, um casal de detetives particulares, já apareciam em outros três livros – que, juntos, funcionavam como misto de pulp fiction e laboratório de idéias para Lehane. Medo da verdade, o filme, também oscila entre esses pólos – e o faz de forma inquieta, imperfeita, sem abandonar as complexidades da trama original.

O que está em jogo é a mutação de uma investigação policial num belo conto moral. Em histórias de detetive, é comum que se descubra aos poucos uma teia de sujeira maior do que, no início, suspeitávamos existir. O filme tem isso, o livro também. Mas, para além de identificar o nome do culpado, aqui os personagens se modificam quando se deparam com situações imprevisíveis, inclassificáveis.

Se adaptada por um cineasta experiente, essa história provavelmente perderia o tom indeciso e agoniado como foi narrada por Lehane. Sem querer, Affleck vai à alma de um livro torto. Surpreendentes, tanto um quanto o outro.

Anúncios