Dia: fevereiro 20, 2008

Antes de partir °

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Meu padrasto avisa que, depois de experimentar o auge mais monumental, o império norte-americano desabará feito farelo de pão. Eu e vocês, meus irmãos, ainda estaremos vivos para testemunhar esse incrível acontecimento, que mudará nossas vidas por completo.

E ele diz esses absurdos com tanta convicção que eu até acredito.

Só sei que, se meu padrasto estiver certo (e ele sempre está), filmes como Antes de partir poderão ser usados como amostras dos valores de uma decadente sociedade norte-americana. “Veja a que ponto chegaram”, dirão. Não pretendo tecer teorias sobre consumo desenfreado, mas o que dizer de um filme sobre dois doentes terminais que, massacrados pelo câncer, associam a idéia de “viver plenamente” a skydiving, corrida de carros e pacotes turísticos caríssimos?

Sem gozação: este filme deveria ter sido produzido pela Stella Barros. Aí a gente até imagina: a premissa será desmontada aos poucos, para justificar que felicidade não tem preço etc e tal. Mas não. Rob Reiner, materialista que só ele, celebra o passeio milionário como um recurso capaz de preencher qualquer lacuna existencial. Sim, há os amigos, a família. Ok. Mas, para não deixar dúvidas, o filme abre e fecha com um cartão-postal do Everest.

Até o anúncio do Mastercard tem mais sangue nas veias.

Um filme que meu padrasto adoraria odiar. Por tudo o que representa e por tudo o que não representa e por todas as paranóias insensatas que desperta em cidadãos preocupados. E eu concordaria com ele, desta vez muito sinceramente.