Dia: fevereiro 12, 2008

Margot at the wedding **

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Prezado Noah Baumbach,

Sua inscrição para o fã-clube brasiliense de Eric Rohmer foi aceita, mas temos algumas considerações a fazer antes que o senhor receba em casa sua carteirinha de associado júnior, acompanhada (conforme notificamos anteriormente por e-mail) de uma cópia em francês do roteiro de O joelho de Claire.

Como prova de sua admiração pelo objeto de nosso culto, a evidência chamada Margot at the wedding falha em alguns importantes requisitos. Nossa generosidade nos impede de rejeitá-lo nesta confraria, já que valorizamos toda e qualquer tentativas de emular o mestre (especialmente as fracassadas, que só nos fazem babar com mais entusiasmo os ovos do velhinho). A única aproximação que conseguimos fazer com a obra do cineasta, na verdade, está no título do seu filme, que (olha que fofo) se chamaria Nicole at the beach.

Mas entenda, meu caro: para fazer referências a Rohmer, soa meio tolo dar um nome simplezinho ao filme e levar os personagens para passear durante as férias. Se o cinema do todo-poderoso se limitasse a essas duas características, teríamos fundado um fã-clube do Truffaut. Elas pouco importam, na verdade.

Nos filmes de Rohmer, os personagens não precisam enfrentar zilhões de conflitos familiares e dezenas de neuroses para despertar alguma atenção. Eles vivem experiências banais. Quando eles vão à praia, eles vão à praia. Eles não vão à praia, descobrem que o cunhado é pedófilo, derrubam o quintal com uma árvore centenária e são quase estuprados pelo filho do vizinho. Isso, Noah, é Todd Field.

Ficamos com a impressão de que o senhor confundiu Rohmer com Bergman (Sorrisos de uma noite de verão não é uma obra de Rohmer, apesar do título). Mas talvez não, já que o filme se parece muito com (perdoe a sinceridade) o Woody Allen mais emburrado e escalafobético. Falando assim, o senhor pode suspeitar que não admiramos o filme. Em grande parte, a aparência é verdadeira.

Mas nos simpatizamos com o fato de que o senhor arrisca dentro de uma estética que poderia continuar deixando a impressão de clone mirim de Wes Anderson (novamente, perdoe a sinceridade, não é por mal, nós achamos A lula e a baleia até bem bonitinho). E um imitador a mais de Rohmer no planeta sempre será uma boa nova – contanto que o senhor não cometa a ousadia de chamar seu próximo projeto de Minha tarde com ela.

Cordialmente,

Tiago Superoito, diretor do fã-clube brasiliense de Eric Rohmer.

Elizabeth: a era de ouro *

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Sei que vocês não querem saber absolutamente nada sobre este filme (e, depois da sessão, também tenho raiva de quem sabe), então sejamos breves.

Pode parecer engraçado, mas, na continuação de Elizabeth, ainda não conseguiram compor um perfil psicológico convincente da rainha inglesa. Enquanto Cate Blanchett faz de tudo para ressaltar algum traço de humanidade da personagem, o diretor vai lá e, a patadas, desmonta todo o esforço da atriz. É uma briga de foice. Ao mesmo tempo em que ressalta a solidão e as frustrações amorosas da “rainha virgem” (e aí estamos diante do folhetim mais cartesiano), a trama insiste em valorizar toda a carga mística, a aura quase divina que cerca a mulher. Quando a narrativa começa a engrenar, o cineasta apela, dá uma de Ridley Scott e rodopia loucamente a câmera em torno de Blanchett. Tudo isso sob trilha sonora apocalíptica.

Que isso, minha gente? Matrix? Onde está Sofia Coppola quando precisamos dela?