Dia: fevereiro 11, 2008

Cloverfield **

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O filme de monstro que existe dentro de cada um de nós tem a cena em que a criatura assustadora agarra o carro, ergue o veículo como um brinquedo e o atira longe. Cloverfield é, pelo menos num primeiro momento, um filme de monstro narrado pelas pessoas de dentro do carro.

A idéia me interessa. Nova York é destruída por um Godzilla do quinto dos infernos, e o que sobrará? A montanha de câmeras digitais abandonadas à margem das highways. Eis a cruel moral da história, meus caros: nós morreremos, o vídeo digital sobreviverá. O cinema também. Em boa parte dos 75 minutos de duração, Cloverfield trata os personagens como espelhos de gente insignificante como eu, como você. Quando a cidade entra em pane, quando o monstrengo de sei-lá-onde sai chutando os prédios, nós correríamos. O filme é isso.

Quase isso, na verdade. Eu preferiria que fosse apenas isso, mas tudo o que tenho é aquilo que Matt Reeves (o diretor) e J.J. Abrams (o produtor) e Drew Goddard (o roteirista) podem oferecer. E, se muitos assistirão ao filme na esperança de encontrar um bom episódio de Lost, já aviso: não é tudo isso. Aviso mais: sabe o romantismo desengonçado que cai feito manga podre nos bons episódios da série? Não diga que não alertei.

É um filme muito curto, mas também entulhado de situações, de poeira, de explícita paranóia pós-11 de setembro (faz Guerra dos mundos, de Spielberg, parecer sutil). Não que isso atrapalhe, já que cada corrida de um ponto a outro da cidade se transforma em um videoclipe do Rage Against the Machine. É um filme que trabalha com despretensão a questão da facilidade/mania de captação de imagens no mundo contemporâneo (e adoro a cena em que, deslumbradas, as pessoas começam a tirar fotografias de celular da cabeça arrancada da Estátua da Liberdade). Mas, a partir do momento em que o protagonista se transforma em um herói que escalaria até a Torre Eiffel para salvar a namoradinha, o roteiro dilui muito da idéia inicial em prol de uma fórmula ordinária de ficção.

Na multidão de anônimos, a câmera calhou de acompanhar as peripécias de um Peter Parker tosco, cria da geração YouTube. É divertido, oportuno. Mas a experiência me soa como a pré-história ainda imprecisa de algo mais interessante que virá.

Confirmed dead ***

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Se o episódio confirma algo, é a promessa de que esta e as próximas temporadas serão mais enxutas, mais centradas na resolução das questões sobre a ilha. Como os mistérios ainda se multiplicam, a série não precisa fazer muito além de ir solucionando todos eles, um a um, enquanto abre outras subtramas que servirão para amarrar todas as pontas do desfecho planejado pelos criadores do programa. Só isso justifica, por exemplo, a inclusão de um físico (Jeremy Davies, finalmente na pele de um cidadão aparentemente normal) na dinâmica da ilha – é um personagem bem oportuno para dar aulinhas aos espectadores sobre eletromagnetismo, talvez.

A impressão deixada até aqui (e posso estar redondamente enganado, já que a série dá rodopios de capítulo em capítulo) é que a trama se aproxima cada vez mais de um thriller de conspirações à Arquivo X. O próprio J.J. Abrams já fazia essa comparação lá na primeira temporada, mas eu não imaginava que Lost teria a coragem de seguir exatamente esse mesmo caminho, muito perigoso – bom lembrar que Arquivo X degringolou por causa da dificuldade de materializar esse complô, e se perdeu totalmente num encerramento didático.

De qualquer forma, a série está com uma grande torcida a favor, e suspeito que saberá jogar melhor com as expectativas dos fãs. Acima de tudo porque não engessa o próprio formato – provas disso são os flashbacks deste episódio, que apresentam rapidamente (e com muita eficiência) os novos personagens. Não há tempo a perder.

Ainda que porcamente dirigido (conte aí em quantas cenas a turma da ilha aparece posando num cenário lindo, como se participassem de ensaio fotográfico para material de divulgação), é um episódio muito forte por intensificar os conflitos entre os habitantes da ilha e, mais uma vez, deixar o público às cegas: em quem podemos confiar? Só não me perguntem sobre o caça-fantasmas – não faço a menor idéia sobre o assunto, e tenho medo de qualquer possibilidade envolvendo esse sujeito.