Mês: janeiro 2008

A lenda do tesouro perdido 2 *

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Nicolas Cage é um explorador de tesouros que descobre, com muito susto e indignação, que um tatatataravô é acusado de ter tramado o assassinato de Abraham Lincoln. Algumas sequências depois e ele estará em um museu de Inglaterra, em busca de uma pista escondida debaixo de uma mesa valiosa. Mais adiante e Cage invadirá a Casa Branca atrás de um livro que contém todos os grandes segredos do mundo. De lá, cairá em um caverna tosca à Indiana Jones, entupida de barras de ouro.

Que conexão há entre esses eventos? Nenhuma, eles apenas sucedem uns aos outros. Assim caminha o cinema de entretenimento pós-Piratas do Caribe: zapeamos as cenas como quem salta de brinquedo em brinquedo num imenso parque temático. O problema é que nunca podemos escolher as atrações de nossa preferência. E, no caso, não temos a opção da montanha-russa nem do trem-fantasma.

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E não é que…

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Sabe o que é pior? Esse lobby do Conduta de risco pode transformar um candidato mediano no estraga-prazeres inofensivo que incomoda muita gente. Taí: não conheço ninguém que defenda apaixonadamente esse filme (no máximo, ouvi coisas como “o George Clooney tá bem”). Irmãos Coen? Paul Thomas Anderson? Sei não, hem.

A lista completa (e previsível) de indicados está aqui.

Jukebox #03

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Fui ali tomar um cafezinho e trouxe algumas impressões rápidas, cruéis e desencontradas sobre discos que já saíram ou estão para sair (e este espaço agora tem nome, vejam só). Antes de mandarmos nossos ídolos ao paredão, dois comentários breves sobre discos que já passaram por estes cantos: 1. Por mais que eu tente, não consigo encontrar em Distortion, do Magnetic Fields, o grande retorno à forma que andam descobrindo por aí. De qualquer forma, é o melhor disco que poderiam ter tirado de uma homenagem superficial ao Psychocandy, do Jesus & Mary Chain. 2. O álbum do Atlas Sound melhora a cada audição, mas ainda não consigo dizer se é uma fraude muito ajeitada ou algo autêntico, digno de muito interesse. Tento de novo e já digo.

catpowerpeq.jpgJukebox, Cat Power

O segundo álbum de covers de Chan Marshall é um livro didático sobre como o Cat Power operou a transição do lo-fi descompromissado para os climões supostamente sofisticados da soul music, do country e do blues. O que estava nas entrelinhas de The greatest ganha nome e sobrenome: Bob Dylan, James Brown, Joni Mitchell, Billie Holiday e daí em diante. Mais desafiador é quando Marshall revê uma canção própria (a ótima Metal heart) ou quando arrisca uma inédita, Song to Bobby. Decepciona como os arranjos são convencionais e até um tanto monocromáticos – e deixei de falar do talento da moça para se apropriar da poesia alheia, mas isso vocês já sabiam.

mountaingoats.jpgHeretic pride, The Mountain Goats

Depois de afundar em depressão no confessional (e acinzentado) Get lonely, John Darnielle tenta um álbum mais arejado e eclético – tanto musical quanto tematicamente. Abre com empostação teatral que chega a lembrar The Decemberists (Sax Rohmer #1), e depois segue por uma variedade de temas que chega até a incluir um delírio sobre o vilão de Halloween. Com menos faixas, provocaria mais impacto. Mas, para os padrões do grupo, tem tudo para constar como um belíssimo álbum. O problema é comigo: por mais que eu entenda e admire a poesia obtusa de Darnielle, não consigo me importar com muito do que ele escreve. A sensação, acho, tem a ver com o distanciamento que ele imprime a belas canções como Tianchi Lake.

honeydrips.jpgHere comes the future, The Honeydrips

É o típico álbum sueco recomendado pela Pitchfork. Ou seja: apesar de sair em busca do pop perfeito, Mikael Carlsson tem muitos esqueletos no armário. Não consegue amarrar uma canção de amor sem incluir nos versos lamentos de solidão e de romantismo juvenil. Tudo bem, mas não chega a ser algo tão especial (dá pra lembrar outros exemplos recentes muito parecidos, como Loney, Dear). De qualquer forma, o álbum tem canções muito fortes, que se sairiam bem como singles – como, por exemplo, Trying something new -, além de uma divertida resposta ao Joy Division (Lack of love will tear us apart). Quando Mikael decide trabalhar seriamente com eletrônica, em Fall from a height, o coração finalmente pega fogo.

radarbros.jpgAuditorium, Radar Bros

São poucas as bandas desconhecidas (pelo menos por mim) que sobrevivem ao duro teste da primeira audição. O Radar Bros, de Los Angeles, venceu a prova com este quinto disco. Toda vez que ouço, ainda torço para que se sustente como um álbum tão consistente quanto eu gostaria que ele fosse. Mas, se não podemos ter tudo o que queremos, eis o trabalho de um grupo que sabe muito bem o que quer – construir uma ponte entre o Pink Floyd de Wish you were here com o alt-country do Wilco. Parece indigesto, mas a combinação dá certo em faixas como Warm rising sun e Hills of stone. As letras são até risíveis de tão absurdas, mas as melodias felizmente brigam bem e ganham a batalha.

Eu sou a lenda ***

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O que faz o último homem do planeta? Joga golfe na asa de um avião de guerra, caça animais silvestres nas ruas vazias de Nova York, assiste aos vídeos de uma locadora abandonada, acena para manequins, decora os diálogos de Shrek, pratica exercícios matinais, arrisca o enésimo karaokê em cima de Three little birds, de Bob Marley. E mata zumbis – já que, caso contrário, este seria um filme de Béla Tarr.

Você diria, com certa razão: os zumbis não são lá muito bem-vindos. Talvez não completamente, eu diria. Eles funcionam como o fator “pé-no-chão” para um filme que, nos primeiros 40 minutos, demonstra muito bem como Hollywood ainda nos deslumbra quando encontra formas inteligentes de usar truques de CGI para deslocar detalhes do nosso mundo a um ambiente de fantasia, de sonho. Não sei por você, mas eu ficaria as duas horas de filme diante daquelas primeiras imagens, em que Will Smith – o último homem do planeta – cumpre atividades banais na companhia de um cachorro-fiel-companheiro (N.E.: Tiago Superoito ficou envergonhado com a observação de foro íntimo, mas o bichão parece muito com o cão dele, Simba) em uma cidade com abundância de tempos mortos.

Will Smith sobreviveu, fazer o quê? Até por falta de opção, ele sai por aí em busca de contato. Transmite uma mensagem em todas as frequências radiofônicas, à espera de que alguém escute e o encontre. À noite, se protege dos zumbis ao ladinho do cão-amigo (perceba que nosso herói solitário não consegue dormir direito) e, de vez em quando, se enfurna em um laboratório para procurar antídoto para o vírus que provocou o apocalipse. O filme se chama Eu sou a lenda, e não à toa: descobriremos que, se a narrativa toda soa meio absurda (três anos de caos e ainda temos água encanada e energia elétrica?), não poderia ter sido diferente. Lendas não obedecem parâmetros realistas, e são moldadas de acordo com os humores de quem as narra.

Pensando bem, este é quase projeto perdido de Shyamalan. Mas sem excessos sentimentais, graças a Jah.

Paranoid park ***

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Revi Paranoid park como quem retorna a uma canção que ouviu apenas uma vez. Como quem tenta, numa segunda audição, criar intimidade com a melodia, a harmonia o refrão. Azar o meu: não foi ontem à noite que consegui contato imediato com esta nova faixa de Gus Van Sant.

O pior é que sou daqueles sujeitos que não se cansariam de, por horas a fio, cantarolar os acordes de Elefante e Last days, que eu jogaria no repeat do meu aparelho de DVD todas as manhãs. Por isso me surpreendo com a dificuldade que tenho para cair de amores por este filme aqui. Fico até constrangido toda vez que ouço alguém dizer que, enfim, Van Sant teria voltado a um discurso mais acessível, mais afetuoso. Acessível para quem? Para mim, parece uma esfinge.

Fiz questão de revê-lo no cinema (e, infelizmente, em exibição digital), na esperança de ser soterrado pela experiência em surround. Nada. Ou quase nada. Sim, consegui admirar o filme como quem admira, digamos, o álbum do Panda Bear. Beleza que está ali, entendo, mas não consigo alcançá-la. Pelo menos desta vez percebi, finalmente, que, se a trinca Gerry-Elefante-Last days divide um mesmo quarto, este longa habita um cômodo diferente. Fez-se mais clara, por exemplo, como a encenação está mais aberta ao imprevisto – este é um filme que oscila maravilhosamente entre a videoarte, o videoclipe experimental e o cinema narrativo. Com aquela trilha sonora de zumbidos mínimos e melancólicos, as cenas borradas de skatistas em slow motion poderiam estar numa galeria de arte contemporânea. Ninguém reclamaria.

O que acontece, então? Talvez, para mim, o arco dramático do filme ainda pareça um tanto simplório (mesmo que Van Sant faça o possível e o impossível para desviar nossa atenção de uma trama sobre crime e castigo, Dostoiévski em remix dubstep) e a câmera ande em círculos ao redor do protagonista, sem arriscar o abraço. O cineasta ainda trata a adolescência como um grande mistério (e aqui voltamos a Elefante, que lida com essa crise de modo mais explícito), mas agora o distanciamento me soa assumidamente mais improvisado, mais torto – um rascunho de canção, uma fascinante fita-demo.

Algo está errado, porém. E não sei ainda o que é.

P.S. Eu te amo **

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Nunca vi tanta gente chorando ao mesmo tempo numa sala de cinema.

E a sala estava lotada e era quinta-feira e o ingresso não estava em promoção. Ou seja: temos um hit. Mas que hit absolutamente cruel! Ele consegue tocar praticamente todos os 68 pontos fracos do espectador que viveu uma história de amor e revirar uns 42 traumas de quem perdeu alguém querido. O público-alvo é, perceba, vastíssimo.

A trama abre com uma longa (e até bem estranha, para filmes do gênero) cena de amor/ódio entre quatro paredes, e depois dos créditos iniciais somos logo jogados em um velório. Sem gelo. O lado masculino do par romântico foi para o espaço, e assim o filme começa. Dali em diante, veremos um conto de viuvez que levará à estratosfera a idéia de que o amor não acaba com o fim da relação – o que faz do filme um complemento mórbido a O passado.

Navegando nesse mar de lágrimas está Holly (Hilary Swank), que se começa a se afogar em luto quando descobre que, antes de ser derrubado por um tumor cerebral, o maridão (Gerard Butler) deixou um plano engenhoso para se fazer presente depois da morte – via cartas, presentinhos fofos, viagens pré-agendadas. Em vez de superar a perda e seguir em frente, a mulher ganha a opção de simplesmente adiar o desfecho da história. Aceita a proposta com todo o entusiasmo do mundo. Não é a atitude mais correta, mas quem faria diferente?

Para cada momento de felicidade da viúva alegre haverá um contraponto dolorido. As sequências são filmadas deste jeito: começam melancólicas e, do nada, descambam em piadinhas tolas. É uma comédia de fantasmas, macabra que só. Mas também uma metáfora até bem sensível (mas duvido que vá agradar a todos os públicos) para a imensa dificuldade de nos desligarmos de alguém muito próximo.

Diante dessas imagens, não temos muito a fazer além de chorar. Chorar por medo de morrer, chorar por medo de perder alguém, chorar com lembranças que vêm e vão. É um filme que joga sujo, como uma terapia de grupo. Mas que me surpreendeu por enfrentar um tema difícil, necessariamente triste, sem abandonar um projeto cômico.

Não é o romance ideal (eu tiraria uns 20 minutos de flashbacks chorosos, para ficarmos apenas em um problema). Mas que é um bicho esquisito, é.

P2: sem saída **

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Enquanto a executiva desesperada quebra as câmeras de vigilância do estacionamento, o guardinha obsessivo mata (literalmente) o tempo com uma performance delirante de um clássico de Elvis Presley.

Combinemos: qualquer filme com uma sequência dessas não será ruim.