Dia: janeiro 12, 2008

O diário de uma babá *

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Dureza a vida de babá em Nova York. Cumprir as ordens de madames insuportáveis, domar criancinhas mimadas, lidar com patrões insensíveis e grosseiros, habitar quartinhos insalubres, trocar a noitada por intragáveis serviços domésticos, cozinhar-lavar-passar, viver trancada num apartamento luxuoso quase 24 horas por dia enquanto os ricos de Upper East Side saem às compras e traem as esposas e afogam-se silenciosamente em crises quase suicidas enquanto frequentam seminários aborrecidos para mães da high society em que aprendem a lidar com babás.

Ahn.

Nada contra as sátiras, pobres coitadas. Encontrar uma boa sátira no cinema – se este filme servir de reflexo para alguma realidade – parece tão difícil quanto ser contratado por uma dondoca boa-praça em Manhattan. Como já davam a entender em Anti-herói americano (de que gosto bastante, não há por que negar), os diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman se dedicam a este metiê: o da charge, da caricatura, do cartoon vivo, da observação amarga dos vícios da sociedade norte-americana. O diário de uma babá funciona meio como uma continuação do longa anterior, já que novamente elege os outsiders como observadores privilegiados da escória do establishment.

Desde as primeiras cenas, em que personagens são reduzidos a peças imóveis do Museu de História Natural, fica explícito que os cineastas querem trabalhar com o que há de mais superficial nesta história, adaptada de livro escrito por duas babás, Emma McLaughlin e Nicola Kraus. Não dá para cobrar, por exemplo, complexidade psicológica dos tipos que zanzam pela trama. Seria como esperar riqueza emocional dos meninos de South Park.

Acontece que é muito, muito fácil confundir sátira inteligente com exposição sarcástica de obviedades, de lugares-comuns. Eis o deslize. Esta Nova York literalmente podre de rica, por exemplo, eu conhecia intimamente antes de ter entrado na sala de cinema. Mais curioso ainda que esse desfile de estereótipos surrados tenha saído de um suposto “diário”, espaço onde esperamos encontrar o registro particular de experiências que não estão a nosso alcance. Garanto que o diário da minha irmã contém revelações mais palpitantes sobre… ora, sobre qualquer coisa.

É sempre decepcionante descobrir que aqueles autores em quem apostamos fichas começam a desmentir nossas expectativas. Mas não vou deixar acompanhar a trajetória da dupla (e também não dá pra desconsiderar as inferferências de estúdio em um projeto como esse, principalmente no lado mais açucarado e romântico da narrativa), ainda que minha tendência será esperar algo que vá além de uma gozação juvenil contra os alvos fáceis de sempre. É levantar, espanar a poeira, dar um chute nos irmãos Weinstein, mais uma chance, vamos lá.

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