Dia: janeiro 4, 2008

Um amor jovem ***

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Nem conheço a moça direito e ela veio com esta: “Tiago, este filme é sua cara. É você cuspido e escarrado”.

Depois de ouvir a ladainha pela quarta ou quinta vez, e engolir a recomendação entusiasmada de outras cinco pessoas, me vi obrigado a ir ao cinema para entender como exatamente era a minha cara. E a minha cara parece ser a de um rapaz ingênuo atormentado pela primeira grande decepção amorosa, o protagonista deste filme dirigido por Ethan Hawke. Ok, folks, captei a mensagem.

Eu, que tenho a tendência de rejeitar espelhos, devia ter odiado este filme. Mas não. Na verdade, entendo o comentário da moça que nem conheço direito. Entendo sim. Este filme é a minha cara. O personagem, mas principalmente o filme. Este é o filme que eu faria e, depois de pronto, teria vergonha de mostrar aos meus pais. Mas é o filme que eu faria. E, depois de pronto, rejeitaria com um “mas eu era tão bobinho, e estava numa fase tão difícil da minha vida!”.

Aposto que Hawke pensa um pouco assim. Todas as situações que ele narra são perfeitamente plausíveis e já aconteceram com pelo menos 90% dos homens heterossexuais na faixa dos 20 anos de idade. A caracterização do protagonista – o macho inseguro, afobado e fragilizado diante da figura feminina – é brutalmente honesta, já que Hawke provavelmente era assim aos 20 anos de idade e, vamos lá, quem não era? Por essas e outras, o diretor e roteirista deve ter um pouco de vergonha deste filme. Não é fácil expor fraquezas desse jeito, abertamente assim. A crítica caiu de pau nos diálogos, supostamente banais. E da narração em off, que se explica demais. Não vejo por que reclamar dessa suposta imaturidade artística. Esta obra, meus amigos, é a imaturidade filmada.

É um dos poucos casos, aliás, em que um título traduzido criativamente para o português joga alguma luz sobre uma obra. Hawke escreve a crônica de um amor jovem com tamanha propriedade que se apega a detalhes devastadores. Cá está o medo tolo de perder a pessoa que se ama, a acomodação diante da mais absoluta felicidade, o temor de congelar a própria vida dentro de uma relação, o apocalipse da separação. Hawke tem tanto interesse em cada uma dessas etapas que estica o filme, quase se perde em psicologia barata (e, freudiano, começa a buscar culpados para a instabilidade de nosso herói sensível), filma com uma proximidade absurda do tema. Se deixa levar.

Na teoria, é tudo muito irregular. Um sub-Linklater, e a semelhança está estampada nos fotogramas. Em uma das melhores cenas, o protagonista dá um conselho para a musa cantora, muito nervosa antes de subir no palco. “No começo, tente imitar uma de suas cantoras favoritas. Depois você aparecerá naturalmente, será inevitável.” Hawke segue a dica. É constrangedor de tão sincero. Se minha cara é essa, gente, estou vermelho de vergonha. Mas também um pouco orgulhoso: este é um pequeno filme dotado daquilo que chamam de beleza interior. Er, obrigado.