A bússola de ouro *
Uma coisa é construir um universo fantástico – outra é transformar a construção desse universo em uma dor de cabeça diabólica. Admiro a criatividade de Philip Pullman, que inventou uma forma complicadíssima de narrar uma fábula muito simples, e a cara-de-pau de Chris Weitz, que a adaptou num rocambole de referências (diretas ou indiretas, a esta altura não importa) a Senhor dos anéis, Harry Potter e, num determinado momento (acredite, arght), até a Piratas do Caribe. Na tentativa de fabricar o Ultimate Blockbuster, Weitz se aproximou perigosamente de uma estranha sátira involuntária dos lançamentos de férias. Cada seqüência deste filme nos levará inevitavelmente a outro filme – e a outro, e depois a outro, e depois a uma dor de cabeça diabólica.
A jornada de uma menina nos confins de um planeta meio mágico (versão feminina de Frodo?) para combater uma instituição de ensino dominada pelo autoritarismo (Hogwatrs em Harry Potter e a Ordem da Fênix?) que também aflige um bando de piratas (oh céus) poderia até ter rendido um filme B tosquinho e agradável, mas infelizmente acabou alçada à condição de grande aposta de fim de ano. Daí que, em vez de tratar a aventura com a leveza que ele merece, Weitz imprime à trama aquele peso de auto-importância capaz de transformar cada pequeno elemento da narrativa (e são muitos) em uma espécie de código secreto. Até deciframos que, por aqui, os animais de estimação representam a alma de cada pessoa, teremos perdido o fio da meada de todos os Tão Importantes Debates encenados por personagens que só parecem existir para discutir assuntos supostamente muito importantes (N.E.: Tiago Superoito perdeu os cinco primeiros minutos de filme, que supostamente explicam direitinho toda essa questão de fundamental interesse).
Pior é como guarda a solução dos mistérios mais palpitantes (qual seria, afinal, a função do tão enigmático Pó?) para o próximo episódio da série. Estamos na era dos filmes que, a partir do decalque de fórmulas de sucesso, funcionam como trailers informais para outros filmes. Bom lembrar que a brincadeira de transformar nosso cérebro em gelatina de morango custa quase R$ 20.
dezembro 27, 2007 às 9:39 pm
Num ponto concordo com você: as cenas se alternam tão rápido que o filme parece um trailer para o resto da trilogia…
Só não fiquei muito zangado com isso porque sai do cinema com a impressão de que o diretor se esforçou para fazer juz ao livro.
Você chegou atrasado ao filme pq ele explica logo nos primeiros 5 minutos que os daemons são um tipo de extensão das pessoas.
Não achei que o filme é cheio de referências… A jornada de Frodo é muuuuuuuito diferente da de Lyra, os Gipcios (piratas) sempre estiveram lá no livro bem daquele jeito mesmo.
Lamento informar que no próximo filme você continuará não sabendo o que é o pó ;-) Isso só fica claro ao longo do terceiro ;-)
dezembro 28, 2007 às 12:55 am
Pois é, eu cheguei exatamente cinco minutos atrasado. Azar o meu.
Vou precisar de mais um filme para saber o que é o Pó?
Mas diz uma coisa: a história lá da escola lembra um pouco o Harry Potter, lembra não?