Dia: novembro 25, 2007

Falsa loura **

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Reichenbach define este novo filme – nascido dentro do projeto de longas sobre a vida das operárias do ABC – como um adágio. No sentido da tradução latina, a palavra significa um pequeno relato de caráter moral. No musical, italiano, é o movimento mais lento de uma peça. Não poderia haver síntese mais exata para o filme, que arrancou muitos aplausos do público do Festival de Brasília.

Como Garotas do ABC, é uma tragicomédia apinhada de referências pop e marginais – há ecos de antigos musicais, de Zurlini, de trash, de paródia. Mas existe um feixe de melancolia que perspassa a trama, e adiciona um elemento amargo, dolorido a esse típico caldeirão que se espera do cineasta. A trama é uma espécie de Showgirls à brasileira – a heroína, vivida por Rosanne Mulholland, é moça pobre que se envolverá com dois astros da música só para quebrar a cara com as vilanices do showbusiness . Mais ainda que Verhoeven, Reichenbach sai em defesa irrestrita das mulheres contra a tirania masculina – todos os homens do filme são cafajestes.

O diretor entra nesse universo de uma forma muito generosa, e assimila as referências musicais (o pop romântico, o brega, o rock diluído) de um determinado grupo social com carinho – numa das melhores cenas do filme, a falsa loura tem um sonho à videokê com o ídolo vivido por Maurício Mattar. Os 15 minutos finais, que flutuam numa longa valsa, estão entre os mais corajosos que o cineasta já filmou – como um delírio hollywoodiano, concluído com um desfecho cruel, eles soam como um capítulo à parte. Entre a ilusão e as tristes conseqüências da ilusão, o diretor nos oferece um pouco das duas sensações.