Dia: novembro 17, 2007

No vale das sombras *

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A bandeira norte-americana é hasteada de ponta-cabeça. A imagem bastaria, mas não num filme de Paul Haggis. Aqui, o veterano do Vietnã – e isso logo numa das primeiras cenas – notará o problema, descerá a bandeira e nos explicará o significado simbólico daquela ação.  Um parágrafo sem entrelinhas.

O tom da narrativa parece se distanciar do mosaico didático de Crash – mas seria tão diferente assim? Novamente, Haggis explora as vítimas de uma América em eterna crise de valores (e a metáfora grosseira da bandeira não nos deixa margem para outra interpretação). Mais uma vez, força conexões entre um momento histórico (no caso, a Guerra do Iraque) e os dramas particulares dos personagens. Talvez a maior novidade esteja no registro: menos espalhafatoso, mais sóbrio, guiado por uma interpretação emocionada de Tommy Lee Jones. É melhor, mas Haggis continua Haggis.

Simplório assim, ele perde a boa oportunidade de soar contemporâneo, principalmente pela forma desinteressada como explora a questão das imagens captadas por soldados, enclausuradas em celulares como poderosos códigos secretos. Opta por uma modorrenta trama de mistério que, por fim, nos leva a um lugar onde sempre estivemos: à denúncia dos horrores da guerra, que transforma bons meninos em soldados cruéis. E, lá no desfecho, ainda retornaremos à imagem da bandeira norte-americana, de ponta-cabeça.

Haggis mastiga e mastiga. Há quem engula.

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