Dia: novembro 9, 2007

Daunbailó ***

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A experiência de assistir aos filmes de Jarmusch em ordem cronológica só explicita um método rigoroso do diretor: cada obra era tratada como prolongamento e expansão das anteriores. O herói “sem dinheiro, sem futuro, sem lar” de Permanent vacation descobriu uma América esvaziada em Estranhos no paraíso. Multiplicado em dois (Zack e Jack) neste Daunbailó, ele será finalmente confrontado com as regras da sociedade: preso por crime que não cometeu, ainda assim não dará a mínima.

É como se Jarmusch saltasse de gênero a gênero (neste caso, a comédia, o filme de prisão, o conto de fadas) sempre pela ótica de tipos desiludidos, outsiders por natureza. O estado de espírito dos personagens subverte os gêneros cinematográficos: a prisão parece tão entediante quanto a vida lá fora, onde nada acontece, tudo se assemelha. Até a presença de uma figura pitoresca (o italiano histriônico de Robert Benigni), prestes a encontrar o amor em uma casinha abandonada no pântano, não modifica nada. “O mundo é triste e belo”, o estrangeiro avisa. Mas ele segue árido. Os planos longos, duríssimos, não nos confortarão.

Não é um filme que me comova, e Jarmusch talvez nem tenha esperado esse tipo de reação de ninguém. Parece distanciado, frio demais, calculado em excesso. Mas, pensando bem, é o que provoca toda a estranheza desta comédia meio-amarga, toda torta, toda errada.

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