Sou/Nós | Marcelo Camelo

Postado em Atualizado em

Você já levou um fora do Marcelo Camelo? Eu já. Na época do lançamento de Ventura, tentei perguntar a ele sobre as influências musicais do Los Hermanos. Uma questão bobinha e babaquinha que jornalistas bobinhos e babaquinhas costumam fazer mas que, no fim das contas, sempre me interessou bastante (ainda mais quando feita para uma banda que, no começo de carreira, se dizia influenciada pelo Weezer).

A resposta do moço foi mais ou menos assim:

- Ih, cara, olha, não sei, vá entender, sabe como é, não é bem assim, não é por aí, é que música, música, música… a gente não se inspira tanto em música, sabe? O que são bandas, o que são influências? Influências? Nossas influências podem estar no cinema, na fotografia, na vida.

(E, antes de ter ouvido finalmente o barulho de uma pauta se espatifando no chão, ainda pensei em perguntar sobre cineastas e fotógrafos, mas preferi deixar quieto).

Quando eles lançaram 4, meu disco favorito do grupo, preferi sugerir a entrevista a outro repórter. Naquela altura, eu já estava conformado com o fato de que o Los Hermanos se mostrava uma banda que se irritava com a idéia de conversar sobre música. No início, estranhei o desinteresse (se eu fizesse parte de uma banda, passaria horas divagando inutilmente sobre o assunto). Depois percebi que as coisas são assim e pronto, confrontá-las seria inútil. E, de fato, cada vez mais o quarteto parecia solto ao vento, largado no mar, pronto para se deixar levar por referências que muitas vezes não cabiam no nome de alguma banda estrangeira ou de algum gênero musical.

Acredito na hipótese de que o Los Hermanos nunca adorou entrevistas por medo de acabar condenado a um rótulo, a uma definição apressada, a um slogan desatento.

O disco solo de Marcelo Camelo leva essa aflição a um degrau acima. Soa tranqüilo, mas não é nada disso. Ouça três vezes e você descobrirá um álbum mais detalhista e aventureiro que qualquer um lançado pelo Los Hermanos. Se 4 representou a ruptura definitiva da banda com as expectativas alheias e com o rock – e, ao mesmo tempo, apontou para o desgaste de um longo relacionamento (hoje, o verso “eu preciso andar um caminho só” soa ainda mais apropriado) -, este Sou/Nós amplia a caixinha de música lírica e introspectiva de Camelo. Mas, surpreendentemente, não tem nada de inocente, de despretensioso.

Sou/Nós (e a ambição começa no título) não é um típico álbum solo. Não é desajeitado, não é um encontro casual, não é um bico de férias. Soa mais como um novo ponto de partida. Cada vez mais seguro daquilo que quer para si, Camelo gravou um disco brasileiríssimo com ecos tanto do novo-folk (em Janta, com Mallu Magalhães) quanto do chamber pop de bandas como Lambchop e do renovado The Sea and Cake (na excelente Téo e a gaivota, que, com participação do Hurtmold, abre o álbum cheia de vãos, lacunas, ruídos e uma melodia em estado de graça). E, sim, um álbum que passa pela MPB, com participações de Dominguinhos (em Liberdade) e uma crônica carioca que lembraria o Chico Buarque dos anos 90/2000 mesmo se não falasse em “velhinhos bons de papo” (a marchinha Copacabana).

Numa primeira audição, os temas do disco nos preparam para uma continuação direta de 4. Camelo ainda canta a solidão (doce ou dolorida), o amor, filosofia à beira-mar (“Acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”, diz em Mais tarde) e se afirma com um certo acanhamento decidido (“Eu caminho no tempo que bem entender”, avisa, em Vida doce). Mas, esparramadas num álbum inteiro, sem interrupções, as canções do compositor ganham a forma de um retrato integral, de uma jornada particular. Nada que tenhamos ouvido antes.

Marcelo Camelo está solto. E se este disco às vezes soa como trilha sonora (as versões em piano para Solidão e Passeando) ou como o documentário sobre a gravação de um disco (são vários as arestas soltas entre uma música e outra) ou como um cruzamento de Marisa Monte com Arnaldo Antunes (sem Carlinhos Brown, aleluia), é que ele vê a música de uma forma generosa, permeável. O medo de trair os próprios desejos talvez tenha sido o veneno que contaminou o Los Hermanos, mas taí o resultado da coragem: um álbum novo, um homem por inteiro.

Primeiro álbum de Marcelo Camelo. 14 faixas, com produção do próprio compositor. Zé Pereira/SonyBMG. ***

About these ads

30 comentários sobre “Sou/Nós | Marcelo Camelo

    Diego disse:
    setembro 17, 2008 às 7:58 pm

    Não consegui chegar até o fim.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 17, 2008 às 8:09 pm

    Do texto, do disco ou de ambos-os-dois?

    Daniel Pilon disse:
    setembro 17, 2008 às 8:18 pm

    Onde tem o completo? Só consegui links para aquele de 10 faixas.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 17, 2008 às 8:22 pm

    Não sei, Pilon. Eu ouvi o CD mesmo.

    Diego disse:
    setembro 17, 2008 às 8:46 pm

    Do disco. O texto eu li, mas fiquei com a impressão de que os argumentos cabem em qualquer disco de estréia solo não-desastroso.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 17, 2008 às 8:48 pm

    É, pois é.

    Samuel disse:
    setembro 17, 2008 às 11:30 pm

    O fato de o 4 ser o seu disco preferido da banda diz muito sobre essa grande aceitação ao solo do Camelo. Eu, particularmente, achei um disco chatíssimo, arrastado, sob uma embalagem velha e com uma poesia de DCE de Letras que prefiro manter longe.

    Existem alguns bons momentos (a participação do Dominguinhos, o instrumental da primeira faixa, Mais Tarde), mas, no geral, é uma extensão do 4 com todos os prós e contras, mas sem a participação do Amarante – que, aliás, soltou três belas musiquinhas do seu projeto com o Fabrizio no MySpace boas o suficiente pra que eu não precise ter que ouvir esse Sou outra vez. Vc ouviu?

    Diego disse:
    setembro 18, 2008 às 12:25 am

    Ele ouviu e achou uma “bela bosta ” (palavras dele!)

    Tiago respondido:
    setembro 18, 2008 às 12:57 am

    Samuel, ouvi só três músicas do projeto do Amarante e ouvi só uma vez. Não gostei muito e isso sim me parece uma embalagem já velha – um lo-fi óbvio, sem grandes riscos. Já o Camelo eu acho que está arriscando bonito. O disco dele não é fácil nem pra quem curte MPB (duvido que minha mãe ouviria tranquilamente, ou qualquer fã de Maria Rita) nem pro típico fã de rock que reclama da “falta de guitarras”. Acho que talvez seja um dos nossos primeiros discos verdadeiramente brasileiros dessa onda do “novo folk”, mas mesmo assim é um projeto pessoal demais pra caber nesses rótulos. E se as letras desse disco são “poesia de DCE de Letras”, então não sei o que você pensa das dos discos dos Los Hermanos – são as letras mais simples que o Camelo já escreveu.

    Tiago respondido:
    setembro 18, 2008 às 12:59 am

    E o Diego parece que decidiu ocupar a função do Guilherme Alves circa 2003.

    Samuel disse:
    setembro 18, 2008 às 1:17 am

    Eu vejo o 4 como o disco da crise do grupo, e acho que isso fica evidente não só na polarização das músicas como também nas letras. O Camelo já disse ser mais influenciado pelo João Gilberto do que pelos Beatles, e aquele excesso de “morenas”, “cais”, “maré”, “em paz com Deus” não me agrada nada, acho um terreno pouco ousado para um músico que se projeta a tanto. Muita frescuragem, o Camelo precisa tirar a meia que colocou para o 4. Gosto bastante das composições dele até o Ventura, Casa Pré-Fabricada, Samba a Dois, Conversa de Botas Batidas, não deflagravam toda essa velhice precoce do cara só pra mostrar que lê Manuel Bandeira. Claro que isso gira em torno da minha preferência pelo tipo de proposta que o Amarante apresenta: um texto mais abstrato, sem amarras literatas, com guitarras ensandecidas e aquela voz rouca. Mais dinâmico, heterogêneo (vem daí tbm meu apreço pelo Ventura).

    E é engraçado, eu entendo claramente sua colocação sobre os riscos desse novo disco do Camelo, mas já acho que, ao mesmo tempo, ele se acomodou demais na poltrona que sentou no 4, já que grande parte das músicas do Sou me parecem sobras reproaveitadas e retrabalhadas do último da banda. E isso vai afastar ainda mais os que não gostam do 4 pelos mesmos motivos que eu desse disco novo, ao mesmo tempo em que mantém a casta de fãs antigos.

    Tiago respondido:
    setembro 18, 2008 às 1:27 am

    Sim, pode ser. Talvez isso aconteça. Quem não gostou do 4 talvez não vá gostar desse disco novo. Ventura é mesmo o último disco do Los Hermanos. E sim, 4 é o disco da crise. Mas não vejo aí um grande problema.

    Pra ficarmos em duas comparações esdrúxulas, o álbum branco dos Beatles e o Pet sounds são clássicos exemplos de discos de crise, que mostravam a desintegração das bandas. De qualquer forma, me parece inevitável que o Camelo e o Amarante sigam caminhos diferentes. Isso acontece. Agora, qual caminho eu prefiro? Hoje, sem dúvidas, o do Camelo. Gosto muito das composições do Amarante para o Los Hermanos (pelos mesmos motivos que você apontou), mas, até agora, ele só tem me frustrado. Não vejo graça na Orquestra Imperial nem na participação dele no disco do Devendra.

    Então é aquela coisa: estou esperando sair o disco dele com o Fabrizio, vou ouvir na maior boa vontade, espero que seja bom, mas me interesso mais por essa caminhada do Camelo – acho mais ousada, mais surpreendente e mais determinada a seguir em frente. Mas entendo os motivos que você tem para não gostar do disco e entendo que o excesso de “morenas” no 4 realmente exige que se entre literalmente na onda do disco. Enfim. Acho que é uma questão de afinidade mesmo, não sei.

    Diego disse:
    setembro 18, 2008 às 3:46 am

    Nossa, essa comparação me abriu os olhos.

    Tiago respondido:
    setembro 18, 2008 às 10:27 am

    Eu ia falar em um tal André Lux, mas aí seria sacanagem. E vc não tá criando nicks falsos. Ainda.

    disse:
    setembro 18, 2008 às 3:17 pm

    Vai se foder!

    Rodrigo disse:
    setembro 18, 2008 às 4:58 pm

    Também gostei bastante do disco. Ele serve como uma continuação do que havia sido feito no 4 (que é o meu favorito dos Hermanos, grande disco), mas expande muito as referências musicais, com um Camelo mais livre para experimentar.

    E eu também não achei a banda do Amarante grande coisa, apesar de simpatizar bastante com ele.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 18, 2008 às 5:14 pm

    Ae, Rodrigo. Também acho um disco mais livre pra experimentações. Ouvi a banda do Amarante de novo e fico com a impressão de que vai provocar menos impacto que a carreira solo do Hammond Jr. E aquela faixa que parece Vampire Weekend me parece calculada demais.

    Danilo M. disse:
    setembro 18, 2008 às 5:48 pm

    Bom lembrar que o disco NÃO é do Los Hermanos, é do Camelo, não cabe espectativas de referencias, pô…
    Vocês tão parecendo fãs do iron maiden comentado o disco solo do bruce Dickson, “Ah, aquela guitarra tripla do Brave new world tá se fechando em tal musica!”

    A comparação é inevitavel, mas será que todos tem que carregar o fardo de ser ex-algo a vida toda?

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 18, 2008 às 6:00 pm

    Danilo, acho que infelizmente SIM.

    Mas, tirando isso, a comparação com o Los Hermanos é inevitável por dois motivos: 1. o disco do Camelo não nega o caminho tomado por ele em 4 e 2. o Los Hermanos, oficialmente, ainda não acabou.

    Danilo M. disse:
    setembro 18, 2008 às 6:20 pm

    Trazer semelhanças é fato, se ele co-criou e gravou aquele disco (4) é porque ele pensa daquela forma, mas daí pra comentarios do Tipo “Ah, essa linha fecha a rotina do 4!”, não sei não…

    Pra mim este disco difere de tudo que poderia chegar a ser um disco do los hermanos, e a participação do Hurtmold deixa claro isso…

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 18, 2008 às 6:23 pm

    Não acho que seja uma ruptura tão explícita assim, Danilo, mas é sim um caminho novo e acho que falei disso no meu texto. A participação do Hurtmold realmente dá uma nova direção musical pra ele.

    Danilo M. disse:
    setembro 18, 2008 às 6:28 pm

    Mas aí, tá um comentario que eles tão só esperando os lançamentos do camelo e do amarante (e suas respectivas turnes) para voltar a ativa… Eu fico na torcida!

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 18, 2008 às 6:32 pm

    Se é assim, podemos aguardar álbum novo pra… 2012?

    Danilo M. disse:
    setembro 18, 2008 às 6:40 pm

    Haahahhaha.
    Cara, nem faço questão de disco novo, só queria ver mais um show…

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 18, 2008 às 6:43 pm

    Agora, ficam implicando que o Camelo fez uma continuação de 4, mas não foi ele quem participou de um disco chamado “Carnaval só no ano que vem”.

    João disse:
    setembro 22, 2008 às 2:07 am

    Achei o álbum ótimo. Um trabalho arriscado e desafiador de um artista que não abre mão de ser fiel a si. No entanto, a beleza de ´Sou´ não está somente na originalidade de Camelo e na sua música ‘carioca’ mas em sua genialidade em conseguir transmitir se forma tão sincera, intimista e ao mesmo tempo criativa sua alma ´angustiada´. Os arranjos combinando mpb, post rock e até samba criam um estilo muito próprio e ao mesmo tempo coerente com as idéias amadurecidas do camelo, que parece deixar a música e a letra mais ‘soltas’ tentando achar assim uma expressão mais honesta e mais íntima. Sem letras muito ‘elaboradas’ ou músicas ´amarradas´, camelo parece que deixa sua ‘arte’ fluir, colocando-a como ela é em si. Eu li aqui algumas pessoas comparando o cd do camelo ao novo trabalho do amarante. Uma coisa não tem nada a ver com a outra e se formos comparar, camelo como artista está no mínimo 100 anos a frente de amarante. É só ouvir as músicas de little joy no youtube para ver como amarante se reduziu agora a um músico de rocks ´manjados´, ´batidos´, sem originalidade ou invenções, fazendo músicas que ora parecem cópia de strokes ou até um reggae de segunda. Um tenta fazer um trabalho arriscado, sincero e desafiador enquanto o outro vai fazer ´rockinhos´ batidos para tentar se lançar em mercado internacional. Camelo ganhou meu respeito com ´Sou´ mas o amarante parece que só se afunda não só pela música meia- boca mas pelos comentários infelizes que sempre faz.

    Tiago respondido:
    setembro 22, 2008 às 2:11 am

    Concordo, João. Mas vou esperar sair o álbum do Little Joy pra ver qual é a da banda.

    Eduardo disse:
    dezembro 11, 2008 às 6:58 pm

    Tiagão, o CD (Little Joy) já saiu. Então, me diz se superou as suas expectativas?

    Tiago respondido:
    dezembro 11, 2008 às 7:03 pm

    Já escrevi um texto sobre o Little Joy, Eduardo. Dá um search que você encontra. Abraço.

    Sandro disse:
    abril 24, 2010 às 11:12 am

    Olá, sou de Porto Alegre e simplesmente achei fantástica a tua crítica ao álbum nós/sòu. Primeira vez que visito tua plataforma, e me sinto muito feliz por ter encontrado uma crítica tão digna. Estou criando um blog que vai se chamar ontemcritiqueiacriticaehoje.blogspot.com e comecei a coletar críticas a respeito do marcelo camelo para postar as diferentes vertentes sobre um determinado tema. Essa é a idéia principal da plataforma que estou criando. É resgatar críticas essencias dos mais diversos extremos e neutros.

    Se der, dá uma passada lá.
    No fim dessa semana já estará no ar!

    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s