Não sei o que seria pior para o público de Brasília: abandonar essa idéia receber artistas internacionais na cidade ou continuar com a história de tratar com desdém shows como o do Rufus Wainwright (a foto aí acima é da apresentação em São Paulo, do G1), que levou cerca de 600 pessoas a um auditório ainda precário, com cadeiras de plástico improvisadas e iluminação de festa de aniversário. Juro que, lá pela terceira música, me imaginei na cobertura de um prédio da Asa Sul comendo churrasco, bebendo caipirinha e, de vez em quando, reparando no compositor extraordinário que havia sido convidado para, ao piano, animar a happy hour. Uma festinha, diga-se, povoada por socialites, fãs de primeira viagem e gente muito alegre que, do músico, só conhecia as faixas da trilha de O segredo de Brokeback Mountain. Por sorte (caso contrário, teria sido um espetáculo do constrangimento), Rufus é a simpatia em pessoa. É ironico sem recorrer a grosserias (em muitos dos momentos em que se dirigiu ao público, chegou a fazer gozação do excesso de Niemeyer em Brasília), é debochado e afetado sem perder a pose. Reclamou da luz forte, mas apenas disso. Disse que saiu à tarde para caminhar na cidade e esbarrou com uma manifestação perto do Congresso Nacional. “Parecia um filme de ficção científica sobre a Revolução Francesa”, comentou. Impossível discordar. Essa performance descontraída, à stand-up comedy, quase roubou o show. Mas o que se destacou mesmo foram as interpretações emocionadas para canções como Going to a town e Beauty mark. Se algum fã mais desconfiado precisava de provas de que o repertório de Rufus independe das firulas (geniais) de álbuns como Want one, não precisa mais. Sozinho ao piano ou ao violão, Rufus desnuda a própria arte com absoluta elegância (e bom humor, já que ele está longe de ser um ás da técnica) e, assim, acaba se aproximando mais de um Jeff Buckley que de um Elton John. Foi quase um pocket show intimista (para a parte do público que esperava um “cantor de ópera”, imagine a decepção), que às vezes se deixava atrapalhar pelo barulho de uma porta que abria no fundo do auditório. Rufus poderia ter apelado aos clássicos do disco ao vivo em homenagem a Judy Garland, mas evitou até isso. Fechou o set com Foolish love, a primeira faixa do primeiro disco. Isso depois de uma versão impressionante para Poses (só ao piano) e de um remake à lual para Want (só ao violão). Na hora de voltar ao hotel, Rufus foi cercado por um grupo de fãs histéricas (e histéricos). Respondeu a todos com muito bom humor. Teve que escapar correndo para a van, já que o auditório ainda não tinha uma saída alternativa para os artistas. Ainda estou me devendo um show completo do rapaz, com banda e o escambau, para saber se ele consegue levar o cabaré pop dos álbuns para o palco. Mas jogo de cintura para sair ileso de roubadas como essa (e, no meio do caminho, conquistar uma platéia inteira), isso é inegável: ele tem, ele pode.
Rufus Wainwright em Brasília ***
Maio 14, 2008 por Tiago Superoito

Até deu uma vontade de ir, mas nem sei se o daqui já foi.
Ele tocou Hallelujah?
Tocou, tocou. Esqueci até de colocar. O bis foi ótimo. Abriu com Poses, seguiu com Hallelujah e fechou com Foolish love.
Que foda!
Nem conheço a faixa de Brokeback, nem nada, mas o melhor tipo de show que existe é esta coisa pocket, intimista.
Deixo de ir em muitos por conta da loucura que sei que serão, em termos de aglomeração, violência e histerismos.
Sou totalmente fã, e estou considerando o da Joss Stone há 2 semanas.
Pois é, mas a idéia de um show intimista do Rufus Wainwright ainda me parece bem estranha… Mas ele tirou o desafio de letra, isso é o que importa.
Vim de Belém apenas para assistir ao show… Fiquei emocionada com a performance dele…. e decepecionada com o local, pensei que fosse melhorrr….Saí mais fã do que nunca……..O importante é que ele é fantástico!!!
Pois é, Carminha. Isso é o importante. O local realmente foi o ponto fraco do show.